A virada do Barcelona: 6 a 1 no PSG e o recorde de 2017
Eram 95 minutos e 20 segundos de jogo quando Neymar levantou a cabeça e deixou cair uma bola por cima da defesa do PSG. Fazia seis minutos que o Camp Nou vivia um estado que não era euforia nem fé, mas algo mais parecido com histeria. Até o goleiro do Barcelona estava dentro da área adversária. Sergi Roberto esticou a perna direita e empurrou a bola para o gol. Ninguém, na história da Copa dos Campeões Europeus, tinha revertido um 4 a 0 do jogo de ida. Naquela noite, isso deixou de ser verdade.
O jogo de ida: uma humilhação da qual ninguém esperava a volta
Em 14 de fevereiro de 2017, no Parque dos Príncipes, o PSG de Unai Emery não venceu o Barcelona: desmontou o Barcelona. Ángel Di María abriu o placar com falta direta aos 18 minutos, Julian Draxler ampliou antes do intervalo, Di María marcou de novo aos 55 e Edinson Cavani fechou o 4 a 0 depois da hora de jogo. A crônica da ESPN resumiu a partida em três palavras: superados em raça, em ritmo e em qualidade.
Um mês antes, nem o mais otimista apostaria um centavo no elenco de Luis Enrique. E havia um detalhe que tornava a situação ainda mais estranha: uma semana antes do jogo de volta, o próprio Luis Enrique tinha anunciado que deixaria o clube no fim da temporada. O técnico que ia tentar o impossível já tinha data de saída marcada. Ainda assim, na véspera da partida, disse em entrevista coletiva que, se tinham levado quatro, eles podiam fazer seis.
- Ida: PSG 4 a 0 Barcelona, 14 de fevereiro de 2017
- Gols: Di María aos 18’ e 55’, Draxler aos 40’, Cavani aos 72’
- Técnicos: Unai Emery e Luis Enrique
- Luis Enrique já tinha anunciado sua saída uma semana antes do jogo de volta
Os primeiros cinquenta minutos saíram perfeitos
Em 8 de março, o Barcelona entrou em campo com três zagueiros e sem medo. Aos 3 minutos, um cruzamento de Rafinha foi mal cortado por Thiago Silva, e Luis Suárez cabeceou para o 1 a 0. Aos 40, Andrés Iniesta segurou uma bola que saía e tocou de calcanhar para dentro da área: bateu em Layvin Kurzawa e entrou. No intervalo, já eram dois gols do Barcelona.
Aos 50, Thomas Meunier derrubou Neymar dentro da área e Leo Messi converteu o pênalti. Três gols em cinquenta minutos. O placar agregado marcava 4 a 3, e ainda restavam quarenta minutos. Pela primeira vez naquele mês, o confronto parecia uma partida de futebol de verdade, e não uma fantasia.
E então veio o gol que mudava tudo
Minuto 62. Cavani conectou um remate que fez o 3 a 1 e deixou o agregado em 5 a 3. Pela regra do gol fora de casa, então em vigor, o Barcelona não precisava mais de dois gols: precisava de três. Em seis minutos de acréscimos, contra um rival que só precisava deixar o relógio correr.
"No minuto 88, o Camp Nou pedia três gols. Nenhuma equipe tinha feito isso antes na maior competição europeia."
Seis minutos
Neymar cobrou uma falta na entrada da área aos 88 minutos e acertou o ângulo. 4 a 1. Aos 90+1, Marquinhos derrubou Suárez, e o árbitro alemão Deniz Aytekin marcou o segundo pênalti da noite; Neymar converteu de novo. 5 a 1, agregado 5 a 5, mas o gol de Cavani fora de casa ainda contava em dobro.
Restavam segundos. Aos 90+5, Neymar levantou a cabeça e colocou a bola por cima da defesa. Sergi Roberto — que tinha entrado em campo aos 76 — chegou se esticando todo. 6 a 1. Agregado 6 a 5.
A explosão de comemoração teve consequências mensuráveis. O instituto do CSIC, localizado a quinhentos metros do Camp Nou, registrou a celebração do sexto gol como um microssismo de magnitude 1,0; o pesquisador Jordi Díaz descreveu como o maior tremor desse tipo já captado por seus sismógrafos.
- 3’ Suárez, de cabeça
- 40’ gol contra de Kurzawa, após calcanhar de Iniesta
- 50’ Messi, de pênalti
- 62’ Cavani, o gol que exigia mais três
- 88’ Neymar, de falta direta
- 90+1’ Neymar, de pênalti
- 90+5’ Sergi Roberto: 6 a 1 e 6 a 5 no agregado
O recorde, dito com precisão
O Barcelona se tornou o primeiro time da história da Copa dos Campeões Europeus e da Champions League a reverter uma desvantagem de quatro gols do jogo de ida. Vale dizer isso com exatidão: não foi a primeira virada de quatro gols em competição europeia — houve casos antes, na Recopa e na Copa da UEFA — mas foi a primeira e única na maior competição continental.
Aquela vitória também garantiu ao Barcelona uma vaga nas quartas de final pela décima temporada seguida. Na fase seguinte, o time caiu eliminado diante da Juventus.
A outra metade da história: a arbitragem
Nenhuma crônica honesta daquela noite pode deixar isso de lado. O PSG enviou uma carta formal à UEFA apontando vários lances. A resposta do órgão foi de uma secura memorável: confirmaram o recebimento da carta e disseram não ter mais nada a comentar.
O lance mais discutido foi o pênalti de Marquinhos em Suárez aos 90+1, com um contato mínimo e o agravante de que Suárez já tinha visto amarelo aos 67 por simulação. O outro foi uma entrada de Javier Mascherano em Di María dentro da área que não foi marcada; o próprio Mascherano reconheceu a falta depois. Di María contou à ESPN que, no momento do chute, foi tocado, que aquela era a única opção que restava ao zagueiro, e que o árbitro não viu nada.
- Árbitro: Deniz Aytekin (Alemanha)
- Unai Emery: as decisões da arbitragem foram contra nós, e perdemos tudo nos minutos finais
- Nasser Al-Khelaifi: apesar de merecermos dois pênaltis, não procuramos desculpas
- A UEFA não puniu o árbitro; uma petição pedindo a repetição da partida passou de 100.000 assinaturas
Análises posteriores levantaram a hipótese de que, com VAR, o PSG teria se classificado. É uma hipótese razoável e merece constar no relato: a maior virada da história da competição aconteceu no último ano antes de a tecnologia mudar esse tipo de noite para sempre.
O que ficou para cada um
Para o Barcelona, foi o último grande estrondo de uma era: Luis Enrique deixou o clube naquele verão, e Neymar, protagonista absoluto da noite, foi contratado pelo PSG cinco meses depois por 222 milhões de euros, a cifra que quebrou o mercado. Ninguém no clube parisiense jamais admitiu relação entre uma coisa e outra, embora a ESPN tenha informado que a negociação ganhou velocidade logo depois daquele confronto. Para o PSG, foi uma ferida que definiu a década seguinte: o clube que tinha vencido por 4 a 0 em casa passou a ser o clube que perdeu por 6 a 1 fora, e essa marca levou oito anos para se desprender, até o time conquistar a Champions em 2025.
"Uma equipe precisou de seis minutos para mudar a história da competição. A outra precisou de oito anos para se livrar desses seis minutos."
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A pergunta que aquela noite deixou continua viva: em quantas de cem vezes o Barcelona se classifica? No Fut Simulator você pode montar o chaveamento da Champions e jogar suas próprias eliminatórias em ida e volta.
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"Uma desvantagem de quatro gols só foi revertida uma vez em setenta anos. Você pode tentar que isso aconteça com você hoje à tarde."
