Bury FC: expulso após 125 anos e a subida lá de baixo
Em maio de 2019 o Bury comemorou um acesso. Em agosto de 2019 já não era um clube da Football League. Entre uma coisa e outra passaram-se noventa e dois dias, e com eles se foram cento e vinte e cinco anos de história.
O acesso que nunca chegou a ser jogado
A temporada 2018/19 foi boa de verdade: segundo lugar da League Two com 79 pontos, vinte e duas vitórias, treze empates e onze derrotas, com 82 gols marcados. Subia à League One atrás do Lincoln e à frente, no critério de desempate, de um MK Dons que havia feito os mesmos 79 pontos.
Aquele time nunca jogou uma partida oficial na divisão que havia conquistado. A EFL foi suspendendo as suas primeiras rodadas de 2019/20 enquanto esperava provas de que o clube podia pagar as suas dívidas, e em 27 de agosto de 2019, às cinco da tarde, venceu o último prazo sem que elas chegassem. A liga retirou a filiação do Bury.
Era o primeiro clube expulso da Football League desde o Maidstone United em 1992. O Bury havia sido eleito para entrar em 1894 e estava lá desde então: cento e vinte e cinco anos seguidos.
Um clube por uma libra
O estopim tinha nome. Em dezembro de 2018, Steve Dale comprou o clube por uma libra. Durante o verão seguinte, uma operação de venda à C&B Sporting Risk caiu, e uma oferta alternativa de última hora também não prosperou. Dale tentou depois reverter a expulsão; a liga respondeu que não existia direito de recurso.
Dói mais se você lembrar o que aquele escudo havia sido. O Bury ganhou a FA Cup duas vezes, em 1900 sobre o Southampton por 4-0 e em 1903 sobre o Derby County por 6-0. Aquele 6-0 segue sendo a maior goleada numa final de FA Cup: o Manchester City o igualou contra o Watford em 2019, mas não o superou. E Gigg Lane era a sua casa desde 1885.
O que os torcedores fizeram
A resposta começou quase assim que a expulsão foi assinada. Os torcedores montaram um clube novo, o Bury AFC, de propriedade dos seus sócios, formalmente constituído em abril de 2020. A federação lhe atribuiu a décima divisão do futebol inglês, e ele jogou a sua primeira partida em 3 de outubro de 2020 contra o Steeton, dividindo estádio com o Radcliffe porque Gigg Lane não era seu.
O objetivo, no entanto, nunca foi montar outro clube: era recuperar o seu. Uma primeira votação para fundir as duas entidades, no fim de 2022, não alcançou o percentual exigido. A segunda, em maio de 2023, passou com mais de 97% dos votos. O clube recuperou o seu nome — Bury Football Club, sem mais nada — e voltou a Gigg Lane a partir da temporada 2023/24.
Quatro acessos desde o fundo
O que se perde quando desaparece o clube de uma cidade pequena não é só uma tabela de classificação. Gigg Lane estava de pé desde 1885 e era um dos estádios mais antigos do futebol inglês em uso contínuo, com capacidade para uns doze mil espectadores numa cidade de pouco mais de setenta mil habitantes. Durante quase quatro anos ficou fechado, sem partidas, enquanto a propriedade do terreno seguia enrolada nos tribunais.
A compra do estádio se resolveu com dinheiro público: a prefeitura de Bury entrou com parte de uma operação de cerca de 1,3 milhão de libras que permitiu que o campo voltasse às mãos da comunidade. Esse detalhe explica por que a fusão de 2023 não foi só um trâmite sentimental: sem o estádio não havia clube a recuperar.
Desde então o Bury não parou de subir. Ganhou a North West Counties Premier Division em 2024/25 e, em 2025/26, a Northern Premier League Division One West, confirmando o título em 25 de abril de 2026. Para 2026/27 joga na Northern Premier League Premier Division, a sétima divisão do futebol inglês.
Segue a quatro degraus da Football League da qual foi expulso, o que soa como muito ou como pouco dependendo de como se olhe. Em agosto de 2019 o clube não tinha divisão, nem estádio próprio, nem sequer direito de usar o seu nome em competição. Hoje tem as três coisas.
"O Bury foi vendido por uma libra e expulso de uma divisão que acabava de conquistar em campo. Os seus torcedores levaram quatro anos para recuperar o nome e o estádio."
É a história que mais se repete nas divisões baixas inglesas, com finais muito diferentes: um clube com mais de um século nas costas, uma propriedade que se torce e uma torcida que decide que o clube não acaba porque um tribunal diz que acabou. Alguns desses clubes nunca voltam. Outros reaparecem quatro divisões abaixo, jogando diante de algumas centenas de pessoas, e passam uma década subindo degrau por degrau.
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