Canadá na Copa 2026: do zero absoluto às oitavas de final
Até 12 de junho de 2026, a seleção do Canadá tinha seis jogos de Copa do Mundo espalhados por trinta e seis anos e não havia somado um único ponto. Tinha marcado um gol no total. Vinte e três dias depois saía de um estádio de Houston eliminada nas oitavas de final, com duas vitórias, um empate e oito gols marcados.
México 1986: três jogos, zero gol
O Canadá chegou à sua primeira Copa do Mundo como campeão da Concacaf de 1985 e saiu do México com a campanha mais pobre possível. Perdeu por 1-0 para a França em León, com gol de Jean-Pierre Papin aos 79 minutos, caiu por 2-0 diante da Hungria em Irapuato e fechou com outro 2-0 contra a União Soviética no mesmo estádio. Último do grupo, zero ponto, zero gol marcado, cinco sofridos.
Depois vieram trinta e seis anos de ausência. No Catar 2022 voltou a perder os três jogos, mas levou algo para casa: contra a Croácia, aos sessenta e sete segundos, Alphonso Davies cabeceou um cruzamento de Tajon Buchanan e fez o primeiro gol da história do Canadá em uma Copa do Mundo. Quatro dias antes ele havia perdido um pênalti diante da Bélgica, defendido por Thibaut Courtois.
O primeiro ponto, em Toronto
O grupo B de 2026 saiu em casa. O Canadá estreou no BMO Field de Toronto diante da Bósnia e Herzegovina, para 43.002 espectadores, e ficou atrás com um gol de Lukić aos 21 minutos. Aos 78, Cyle Larin empurrou para as redes um cruzamento de Promise David e garantiu o primeiro ponto da história canadense em uma Copa do Mundo.
Vale a pena parar para olhar quem deu essa assistência. Promise David, nascido em Brampton e formado na base do Toronto FC, jogava em 2024 no Nõmme Kalju, da Estônia, onde marcou catorze gols em dezesseis jogos. De lá foi para o Union Saint-Gilloise, onde fez dezenove e ajudou o clube a conquistar o primeiro título belga em noventa anos. Entrou do banco em Toronto e deu o passe do gol.
O 6-0 que mudou tudo
No dia 18 de junho, no BC Place de Vancouver e diante de 52.497 pessoas, veio a primeira vitória: 6-0 no Catar. Larin abriu aos 16, Jonathan David fez três — 29, 45+3 e 90+2 —, Nathan Saliba marcou aos 64 e Mohamed Manai fez contra aos 75.
Mas aquele jogo também deixou uma imagem que explica o time melhor do que o placar. Aos 51 minutos, Ismaël Koné fraturou a tíbia e a fíbula em uma dividida e precisou ser operado no dia seguinte. Treze minutos depois, Saliba — o jogador que havia entrado no lugar dele — mandou uma falta no ângulo, correu até a arquibancada e levantou a camisa vazia com o número 8 de Koné.
No dia 24 de junho, outra vez em Vancouver, a Suíça venceu por 2-1 com gols de Vargas e Manzambi; Promise David descontou aos 76. O Canadá passou em segundo, empatado em quatro pontos com a Bósnia e classificado pelo saldo de gols: +5 contra −1. Ou seja, a goleada sobre o Catar foi literalmente o que o colocou na fase seguinte.
Vencer fora de casa por ter terminado em segundo
Terminar em segundo teve um preço: em vez de jogar os 16 avos de final no BC Place, o Canadá viajou até o SoFi Stadium, em Inglewood. Ali, diante de 69.237 espectadores, Stephen Eustáquio — nascido em Leamington, Ontario, de pais portugueses, e capitão naquela noite com Davies lesionado — soltou uma direitada da entrada da área aos 90+2 para o 1-0 sobre a África do Sul. Primeira vitória canadense em um mata-mata de Copa do Mundo.
No dia 4 de julho, em Houston, acabou. O Canadá segurou um primeiro tempo sem gols em que chegou mais do que o Marrocos e em que Bounou salvou duas chances claras, e depois se quebrou no contra-ataque: Ounahi marcou aos 50 e aos 82, e Rahimi fechou o 0-3 aos 90+8.
"Seis jogos e um gol em trinta e seis anos; cinco jogos e oito gols em vinte e três dias. Esse é exatamente o salto que o Canadá deu em 2026."
O time que fez isso não surgiu do nada. Jonathan David, autor dos três gols contra o Catar, é o maior artilheiro da história do Canadá e joga na Juventus desde julho de 2025, depois de cinco temporadas no Lille. Alphonso Davies, capitão e lateral do Bayern, chegou ao torneio depois de romper o ligamento cruzado em março de 2025 e sofrer uma lesão muscular em maio de 2026, e essas duas lesões o deixaram no banco durante todo o campeonato. Alistair Johnston joga no Celtic, Tajon Buchanan no Villarreal e Dayne St. Clair é goleiro do Inter Miami. É a melhor geração que o país já teve, e ela coincidiu com uma Copa do Mundo em casa.
Jesse Marsch, que renovou até 2030 apenas duas semanas e meia antes da estreia, encerrou o torneio com trinta e sete jogos à frente da equipe. O Canadá aparecia em trigésimo no ranking da FIFA de julho de 2026.
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